Disse para a amada ao acordar:
- Hoje não quero compromisso! Vamos fingir que não estamos pra ninguém?
- Feito! Ficamos o dia todo quietinhos, só nós dois.
- Não vamos abrir a porta nem que ameacem por abaixo. Hoje não quero compromisso!
Enquanto ela tomava banho, ele decidiu que faria uma surpresa. Prepararia o desjejum com direito até mesmo a uma rosa da jardineira da varanda para enfeitar a bandeja.
Animado, levantou-se e, mesmo despido, foi para a cozinha ligar a cafeteira. Do armário de cima da pia tirou uma taça de champanhe para servir de vaso à rosa que colheria.
Satisfeito com sua idéia, que certamente faria sua companheira agradecer com alguns carinhos extras, ignorou o friozinho que arrepiava os pêlos, tomou coragem e destrancou a porta de vidro da varanda.
A jardineira com belas rosas, uma delas que ornaria o café da amada, estava alguns passos adiante.
- Melhor voltar e colocar um calção.
Quase voltou mas ao ouvir o chuveiro desligar, concluiu que não haveria tempo para esses pudores.
- Rapidinho pego essa rosa ...
Olhou com cautela para a rua poucos metros abaixo – o apartamento ficava no primeiro andar. Ninguém à vista. Não era tão cedo, mas a garoinha fina deveria ter espantado as pessoas. Precipitou-se em direção à jardineira.
Na aflição de conquistar o símbolo de sua coragem e prova de seu amor – afinal, quem nos dias de hoje sai pelado até a varanda para colher uma rosa para a mulher amada? – nem notou que o vento soprava cada vez mais forte. Partiu varanda afora, descalço e sem calça para um segundo depois ouvir um sonoro bater de vidraça às suas costas. A porta da varanda havia fechado com o vento.
- Não liga pra isso agora. Pega logo essa rosa e entra rápido!
Depois de ferir todos os dedos nos espinhos e quase trincar os dentes que batiam de frio e de aflição pela situação que ele mesmo criara, deu meia-volta.
- A esta hora ela já deve estar passando aqueles creminhos ... ai meu Deus, que delíc... ai meu Deus que essa porta não abre!
Por segurança, o trinco da porta da varanda ficava do lado de dentro e o “maldito” fechara com a batida causada pelo vento.
Frio e desespero. Mais desespero que frio pois, sem prévio aviso, na mais pura inocência, a senhora do apartamento ao lado saía para sua varanda para também pegar umas flores e enfeitar a sala.
- E agora? O que faço?
Varandas conjugadas, separadas apenas pelo gradil não são os melhores esconderijos para marmanjos pelados. Mesmo que tenham em uma das mãos uma bela rosa.
Desprevenida, a senhora dá de cara com a cena. Derruba ancinho e regador. Abre a boca mas não emite um som sequer.
- Calma, minha senhora! Desculpe. Não é o que a senhora está pensando!
- Não estou pensando, estou vendo!
- Me desculpe. Saí apenas para apanhar uma rosa para fazer um agrado ...
- Nem mais um pio, seu tarado! Fica quieto senão eu grito e chamo a polícia!
- Tudo bem, eu fico quieto mas é que ...
- Olha aqui, eu já disse pra ficar quieto, seu taradinho! Apesar de sua desobediência vou te mostrar que sou boazinha. Eu não conto pra ninguém que você fica pelado na varanda atentando ao pudor se você fizer o que vou te mandar. Chega aqui mais perto...
Sem alternativa, concordou com a proposta.
Minutos depois conseguiu entrar, graças às dicas da velhota que sabia como destravar por fora a tranca da porta da varanda.
Correu para a cozinha no tempo da sua amada sair do quarto. Disfarçou como pôde e ofereceu a rosa com uma xícara de café.
E a partir daquele dia, todos os dias, na hora do banho da companheira, passou a ter um compromisso.
domingo, 29 de junho de 2008
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4 comentários:
Eita comppromisso danado!!!
Patricia, tou gostando de ver você soltando as manguinhas e se revelando uma autora muito bem humorada. Texto redondinho, na medida, gostoso de ler e de ouvir. Ahe garooooota! beijão
Excelente idéia e o plágio ficou a altura do original (pra não dizer, um pouco acima, porque você teve uma malícia humorada que o autor do original, talvez pela época em que escreveu, ou sei lá, perdeu a oportunidade de explorar) Adorei!
Patrícia,
Essa muito bem arranjada variação de "o homem nu" me parece superior em alguns aspectos ao original. Depois me prolongo em email. Talvez você possa repensar o final, quando a vizinha aparece. Cabe ali mais tensão, mais jogo de palavras, mediante a nudez do pobre homem. Por outro lado, o desfecho, o comentário sobre o compromisso, quem sabe possa ser um bocadinho mais extenso, justamente para temperar o tom malicioso.
Parabéns. Gostei muito.
Luiz Roberto
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