Abruptamente fez a proposta.
Quase todas as vozes da sala se levantaram ao mesmo tempo. Apenas uma permaneceu calada. Sereno, o autor da idéia aguardou os ânimos baixarem e sentenciou:
- A verdade é que todos vocês gostam das rosas mas não querem saber de lidar com os espinhos!
E com um longo suspiro deixou o recinto sem mais nada dizer.
Na manhã seguinte, a angústia tomara conta de sua alma. Checou mais uma vez seu destino no zodíaco.
– Está escrito nas estrelas. Nada mais posso fazer mas tenho tanto por fazer, refletiu.
Seu coração batia forte, intenso, ritmado. Seus pensamentos são interrompidos pelo som de um estampido, atípico, desconhecido, sem registro em sua memória auditiva. Passou. De volta ao silêncio, tenta retomar seus pensamentos mas o frio envolve seu corpo, a fraqueza e o vazio, dominam sua mente. O tiro acertara em cheio seu coração.
O Jogo das Doze Palavras – texto criado para a Oficina de Inverno do curso de Formação de Escritores.
domingo, 13 de julho de 2008
Qual é o peso da Vida? Ah, isso depende!
No consultório do obstetra é a soma do peso da mãe e mais uns 15 a 20 quilos adquiridos na gestação.
Na sala de parto é o quanto aquele monte de células se desenvolveu por umas 40 semanas até ver a luz.
Durante os primeiros meses e anos, varia com a condição financeira da família, com a constituição física e com maiores ou menores doses de Biotônico Fontoura.
Na adolescência, além da herança genética, conta com a participação de uma revolução hormonal e com os apelos do McDonald’s e da Coca-Cola.
Na idade adulta - que maravilha! - oscila entre cervejas, churrascos, tábuas de frios e queijos, vinhos, foundues e tentativas frustradas de ir à academia queimar isso tudo.
Na velhice, bom, na velhice, aí depende de quem leva o caixão!
Exercício realizado durante a Oficina de Inverno do curso de Formação de Escritores.
Na sala de parto é o quanto aquele monte de células se desenvolveu por umas 40 semanas até ver a luz.
Durante os primeiros meses e anos, varia com a condição financeira da família, com a constituição física e com maiores ou menores doses de Biotônico Fontoura.
Na adolescência, além da herança genética, conta com a participação de uma revolução hormonal e com os apelos do McDonald’s e da Coca-Cola.
Na idade adulta - que maravilha! - oscila entre cervejas, churrascos, tábuas de frios e queijos, vinhos, foundues e tentativas frustradas de ir à academia queimar isso tudo.
Na velhice, bom, na velhice, aí depende de quem leva o caixão!
Exercício realizado durante a Oficina de Inverno do curso de Formação de Escritores.
domingo, 29 de junho de 2008
O compromisso
Disse para a amada ao acordar:
- Hoje não quero compromisso! Vamos fingir que não estamos pra ninguém?
- Feito! Ficamos o dia todo quietinhos, só nós dois.
- Não vamos abrir a porta nem que ameacem por abaixo. Hoje não quero compromisso!
Enquanto ela tomava banho, ele decidiu que faria uma surpresa. Prepararia o desjejum com direito até mesmo a uma rosa da jardineira da varanda para enfeitar a bandeja.
Animado, levantou-se e, mesmo despido, foi para a cozinha ligar a cafeteira. Do armário de cima da pia tirou uma taça de champanhe para servir de vaso à rosa que colheria.
Satisfeito com sua idéia, que certamente faria sua companheira agradecer com alguns carinhos extras, ignorou o friozinho que arrepiava os pêlos, tomou coragem e destrancou a porta de vidro da varanda.
A jardineira com belas rosas, uma delas que ornaria o café da amada, estava alguns passos adiante.
- Melhor voltar e colocar um calção.
Quase voltou mas ao ouvir o chuveiro desligar, concluiu que não haveria tempo para esses pudores.
- Rapidinho pego essa rosa ...
Olhou com cautela para a rua poucos metros abaixo – o apartamento ficava no primeiro andar. Ninguém à vista. Não era tão cedo, mas a garoinha fina deveria ter espantado as pessoas. Precipitou-se em direção à jardineira.
Na aflição de conquistar o símbolo de sua coragem e prova de seu amor – afinal, quem nos dias de hoje sai pelado até a varanda para colher uma rosa para a mulher amada? – nem notou que o vento soprava cada vez mais forte. Partiu varanda afora, descalço e sem calça para um segundo depois ouvir um sonoro bater de vidraça às suas costas. A porta da varanda havia fechado com o vento.
- Não liga pra isso agora. Pega logo essa rosa e entra rápido!
Depois de ferir todos os dedos nos espinhos e quase trincar os dentes que batiam de frio e de aflição pela situação que ele mesmo criara, deu meia-volta.
- A esta hora ela já deve estar passando aqueles creminhos ... ai meu Deus, que delíc... ai meu Deus que essa porta não abre!
Por segurança, o trinco da porta da varanda ficava do lado de dentro e o “maldito” fechara com a batida causada pelo vento.
Frio e desespero. Mais desespero que frio pois, sem prévio aviso, na mais pura inocência, a senhora do apartamento ao lado saía para sua varanda para também pegar umas flores e enfeitar a sala.
- E agora? O que faço?
Varandas conjugadas, separadas apenas pelo gradil não são os melhores esconderijos para marmanjos pelados. Mesmo que tenham em uma das mãos uma bela rosa.
Desprevenida, a senhora dá de cara com a cena. Derruba ancinho e regador. Abre a boca mas não emite um som sequer.
- Calma, minha senhora! Desculpe. Não é o que a senhora está pensando!
- Não estou pensando, estou vendo!
- Me desculpe. Saí apenas para apanhar uma rosa para fazer um agrado ...
- Nem mais um pio, seu tarado! Fica quieto senão eu grito e chamo a polícia!
- Tudo bem, eu fico quieto mas é que ...
- Olha aqui, eu já disse pra ficar quieto, seu taradinho! Apesar de sua desobediência vou te mostrar que sou boazinha. Eu não conto pra ninguém que você fica pelado na varanda atentando ao pudor se você fizer o que vou te mandar. Chega aqui mais perto...
Sem alternativa, concordou com a proposta.
Minutos depois conseguiu entrar, graças às dicas da velhota que sabia como destravar por fora a tranca da porta da varanda.
Correu para a cozinha no tempo da sua amada sair do quarto. Disfarçou como pôde e ofereceu a rosa com uma xícara de café.
E a partir daquele dia, todos os dias, na hora do banho da companheira, passou a ter um compromisso.
- Hoje não quero compromisso! Vamos fingir que não estamos pra ninguém?
- Feito! Ficamos o dia todo quietinhos, só nós dois.
- Não vamos abrir a porta nem que ameacem por abaixo. Hoje não quero compromisso!
Enquanto ela tomava banho, ele decidiu que faria uma surpresa. Prepararia o desjejum com direito até mesmo a uma rosa da jardineira da varanda para enfeitar a bandeja.
Animado, levantou-se e, mesmo despido, foi para a cozinha ligar a cafeteira. Do armário de cima da pia tirou uma taça de champanhe para servir de vaso à rosa que colheria.
Satisfeito com sua idéia, que certamente faria sua companheira agradecer com alguns carinhos extras, ignorou o friozinho que arrepiava os pêlos, tomou coragem e destrancou a porta de vidro da varanda.
A jardineira com belas rosas, uma delas que ornaria o café da amada, estava alguns passos adiante.
- Melhor voltar e colocar um calção.
Quase voltou mas ao ouvir o chuveiro desligar, concluiu que não haveria tempo para esses pudores.
- Rapidinho pego essa rosa ...
Olhou com cautela para a rua poucos metros abaixo – o apartamento ficava no primeiro andar. Ninguém à vista. Não era tão cedo, mas a garoinha fina deveria ter espantado as pessoas. Precipitou-se em direção à jardineira.
Na aflição de conquistar o símbolo de sua coragem e prova de seu amor – afinal, quem nos dias de hoje sai pelado até a varanda para colher uma rosa para a mulher amada? – nem notou que o vento soprava cada vez mais forte. Partiu varanda afora, descalço e sem calça para um segundo depois ouvir um sonoro bater de vidraça às suas costas. A porta da varanda havia fechado com o vento.
- Não liga pra isso agora. Pega logo essa rosa e entra rápido!
Depois de ferir todos os dedos nos espinhos e quase trincar os dentes que batiam de frio e de aflição pela situação que ele mesmo criara, deu meia-volta.
- A esta hora ela já deve estar passando aqueles creminhos ... ai meu Deus, que delíc... ai meu Deus que essa porta não abre!
Por segurança, o trinco da porta da varanda ficava do lado de dentro e o “maldito” fechara com a batida causada pelo vento.
Frio e desespero. Mais desespero que frio pois, sem prévio aviso, na mais pura inocência, a senhora do apartamento ao lado saía para sua varanda para também pegar umas flores e enfeitar a sala.
- E agora? O que faço?
Varandas conjugadas, separadas apenas pelo gradil não são os melhores esconderijos para marmanjos pelados. Mesmo que tenham em uma das mãos uma bela rosa.
Desprevenida, a senhora dá de cara com a cena. Derruba ancinho e regador. Abre a boca mas não emite um som sequer.
- Calma, minha senhora! Desculpe. Não é o que a senhora está pensando!
- Não estou pensando, estou vendo!
- Me desculpe. Saí apenas para apanhar uma rosa para fazer um agrado ...
- Nem mais um pio, seu tarado! Fica quieto senão eu grito e chamo a polícia!
- Tudo bem, eu fico quieto mas é que ...
- Olha aqui, eu já disse pra ficar quieto, seu taradinho! Apesar de sua desobediência vou te mostrar que sou boazinha. Eu não conto pra ninguém que você fica pelado na varanda atentando ao pudor se você fizer o que vou te mandar. Chega aqui mais perto...
Sem alternativa, concordou com a proposta.
Minutos depois conseguiu entrar, graças às dicas da velhota que sabia como destravar por fora a tranca da porta da varanda.
Correu para a cozinha no tempo da sua amada sair do quarto. Disfarçou como pôde e ofereceu a rosa com uma xícara de café.
E a partir daquele dia, todos os dias, na hora do banho da companheira, passou a ter um compromisso.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Os olhos dirão
Não aparento o que sou.
A timidez embaça a visão.
Não sou o que aparento.
A emoção confunde o olhar.
Quem sou?
Depende de quem deseja ver.
A timidez embaça a visão.
Não sou o que aparento.
A emoção confunde o olhar.
Quem sou?
Depende de quem deseja ver.
domingo, 15 de junho de 2008
Como tudo começou
Primeiro encontro. Enfim, iria vê-la novamente depois de se conhecerem na festa na casa da vizinha quinze dias atrás.
Parou o fusca creme na frente do edifício onde morava a garota, quase ao mesmo tempo que seu coração. "Lá vem ela! Pensa rápido em algo bonito para dizer." - Ai, que coceira! - Pensou, não falou.
A agonia principiava naquele instante. A sola do pé direito comichava que só ela! - Esquece que passa. Não passou.
__________________________________________________________________
Chegaram ao cinema quase sem falar. "Você quer ver outro filme?" - Não, só quero coçar meu pé! - Pensou, não falou. Como dizer uma coisa dessas no primeiro encontro? 'Dá licença, meu bem, mas vou dar uma coçadinha...'
"Quero ver esse filme sim. Dizem que a história é ótima. Mas antes vou ao toalete, tudo bem?"
"Claro. Na volta você compra pipoca?"
__________________________________________________________________
- Finalmente! No banheiro vou coçar até sangrar! Desgraça de coceira! - Pensou, não falou.
Mal entrou no banheiro masculino, escutou: "E aí? Como vai? Nos vimos na festa da sua vizinha, lembra? Você estava se entendendo com uma colega minha da faculdade."
- Ai, meu Deus! E eu querendo coçar meu pé. Disfarça, faz xixi logo e sai. Imagina se na segunda-feira, no meio da aula, o cara contra pra ela que eu tirei o sapato, a meia e comecei a coçar o pé!
___________________________________________________________________
"Demorou!"
"É que eu encontrei aquele seu colega de faculdade que estava na festa. Quer pipoca e refri?"
- Vou ter que dar um jeito nisso durante o filme. Maldita coceira que não passa. Não é possível! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
- Ai, como é bom! Toma coceira maldita! - Raspando o pé calçado na sola do outro apenas com a meia, finalmente conseguiu botar fim na agonia e prestar alguma atenção na história que fazia a garota chorar. - Ela nem percebeu! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
Hoje, quase vinte anos depois, ela às vezes olha o marido e pensa, não fala - Naquele dia você estava tão bonitinho disfarçando pra coçar o pé...
Parou o fusca creme na frente do edifício onde morava a garota, quase ao mesmo tempo que seu coração. "Lá vem ela! Pensa rápido em algo bonito para dizer." - Ai, que coceira! - Pensou, não falou.
A agonia principiava naquele instante. A sola do pé direito comichava que só ela! - Esquece que passa. Não passou.
__________________________________________________________________
Chegaram ao cinema quase sem falar. "Você quer ver outro filme?" - Não, só quero coçar meu pé! - Pensou, não falou. Como dizer uma coisa dessas no primeiro encontro? 'Dá licença, meu bem, mas vou dar uma coçadinha...'
"Quero ver esse filme sim. Dizem que a história é ótima. Mas antes vou ao toalete, tudo bem?"
"Claro. Na volta você compra pipoca?"
__________________________________________________________________
- Finalmente! No banheiro vou coçar até sangrar! Desgraça de coceira! - Pensou, não falou.
Mal entrou no banheiro masculino, escutou: "E aí? Como vai? Nos vimos na festa da sua vizinha, lembra? Você estava se entendendo com uma colega minha da faculdade."
- Ai, meu Deus! E eu querendo coçar meu pé. Disfarça, faz xixi logo e sai. Imagina se na segunda-feira, no meio da aula, o cara contra pra ela que eu tirei o sapato, a meia e comecei a coçar o pé!
___________________________________________________________________
"Demorou!"
"É que eu encontrei aquele seu colega de faculdade que estava na festa. Quer pipoca e refri?"
- Vou ter que dar um jeito nisso durante o filme. Maldita coceira que não passa. Não é possível! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
- Ai, como é bom! Toma coceira maldita! - Raspando o pé calçado na sola do outro apenas com a meia, finalmente conseguiu botar fim na agonia e prestar alguma atenção na história que fazia a garota chorar. - Ela nem percebeu! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
Hoje, quase vinte anos depois, ela às vezes olha o marido e pensa, não fala - Naquele dia você estava tão bonitinho disfarçando pra coçar o pé...
domingo, 8 de junho de 2008
Nevoeiro
Finalmente o nevoeiro começa a dissipar. Alguns raios de sol anunciam a manhã e revelam a paisagem tão familiar aos meus olhos.
Há quantos anos venho a este lugar? Muitos mesmo. Desde o final de minha adolescência e mesmo assim não consigo me cansar. Gosto do cheiro de maresia. Me deixo levar pelo som das ondas que quebram na praia. Parece que conheço cada grão de areia!
Todas as pessoas me chamam pelo nome, reconhecem meus pertences ao lado do guada-sol e respeitam minhas leituras solitárias.
Todas as pessoas. Hoje não vejo ninguém. É cedo ainda? Estou com frio mas em breve o calorzinho matinal me dará algum conforto. As pessoas devem começar a chegar. Passarão fragmentos de conversas alheias que despertarão minha imaginação novamente.
Mas sinto que o frio começa a doer no ossos. O sol já deveria me aquecer. Talvez a noite tenha sido gelada e levará mais algum tempo para o calor trazer bem estar e também as pessoas.
Pessoas. Por que não chegam? Onde estarão? Talvez, como meu companheiro, devam estar de preguiça ou tomando uma segunda xícara de café.
Meu companheiro. A estas horas já costuma estar no mar a brincar de domar as ondas. Não o vejo. Terá escolhido outra distração? Me avisaria!
Me avisaria também que ainda faz frio apesar do sol. Vejo seu brilho mas não sinto seu poder. Estremeço e me encolho cada vez mais. Nesse gesto não me percebo. É como se não estivesse ali. O frio, ainda mais intenso, acaba por fim me trazendo uma certeza: sou só lembranças. Parti!
Parti sem aviso, não me dei conta e continuei como se ainda fizesse parte do cenário que tanto apreciei esses anos todos.
Desespero. Reflito e decido: aguardar o entardecer e nas sombras procurar abrigo até que o próximo nevoeiro me envolva novamente. Desta vez, para sempre!
Há quantos anos venho a este lugar? Muitos mesmo. Desde o final de minha adolescência e mesmo assim não consigo me cansar. Gosto do cheiro de maresia. Me deixo levar pelo som das ondas que quebram na praia. Parece que conheço cada grão de areia!
Todas as pessoas me chamam pelo nome, reconhecem meus pertences ao lado do guada-sol e respeitam minhas leituras solitárias.
Todas as pessoas. Hoje não vejo ninguém. É cedo ainda? Estou com frio mas em breve o calorzinho matinal me dará algum conforto. As pessoas devem começar a chegar. Passarão fragmentos de conversas alheias que despertarão minha imaginação novamente.
Mas sinto que o frio começa a doer no ossos. O sol já deveria me aquecer. Talvez a noite tenha sido gelada e levará mais algum tempo para o calor trazer bem estar e também as pessoas.
Pessoas. Por que não chegam? Onde estarão? Talvez, como meu companheiro, devam estar de preguiça ou tomando uma segunda xícara de café.
Meu companheiro. A estas horas já costuma estar no mar a brincar de domar as ondas. Não o vejo. Terá escolhido outra distração? Me avisaria!
Me avisaria também que ainda faz frio apesar do sol. Vejo seu brilho mas não sinto seu poder. Estremeço e me encolho cada vez mais. Nesse gesto não me percebo. É como se não estivesse ali. O frio, ainda mais intenso, acaba por fim me trazendo uma certeza: sou só lembranças. Parti!
Parti sem aviso, não me dei conta e continuei como se ainda fizesse parte do cenário que tanto apreciei esses anos todos.
Desespero. Reflito e decido: aguardar o entardecer e nas sombras procurar abrigo até que o próximo nevoeiro me envolva novamente. Desta vez, para sempre!
domingo, 1 de junho de 2008
Foi mais ou menos assim que me contaram...
Ele estava disposto a pagar com trabalho pelo prato de comida. Não tinha orgulho. Tinha fome. Não queria pedir. Queria trocar.
- Ajudo no que precisar. Sou habilidoso com as mãos.
- Passa daqui vagabundo! Vociferou o dono do boteco que servia PF. - Acha que caio nessa, vagabundo espertinho!
Vagabundo. Não, isso não! Espertinho, bem...
O estômago doía. Concentrou. Pensou e falou bem alto para todo mundo ouvir lá da calçada:
- Não careço do teu prato de comida requentada. Vou preparar um caldinho de pedra que vai roubar tua freguesia.
Começou a procurar pelo chão. Pegou uma pedra, avaliou, jogou de volta. Outra, limpou na blusa. - Essa sim, dá bom caldo!
O dono do boteco e a rala freguesia caem na risada.
- Nunca provaram? Não sabe o que perderam.
- Faz então, ô malandro, gritou um de dentro do boteco. - Quero ver!
- Com prazer. Mas preciso que o "chef" deste distinto estabelecimento me deixe usar o fogão e empreste os utensílios. Milagre não dá!
- É cortesia da casa, disse o proprietário. - Hoje a clientela vai ter show ao vivo! Até vou deixar a porta da cozinha aberta pra todo mundo ver!
Depois de encher uma panela grande com água, colocou a pedra dentro e acendeu o fogo. Mexeu. Aguardou uns instantes. Mexeu novamente comentando com seus botões, mas alto o suficiente para se fazer ouvir:
- Com uns temperinhos antes da fervura fica um primor.
O público, apinhado no balcão do boteco para ver a entrada da cozinha, convence o dono a fornecer os temperos que tiver.
Mais algumas mexidas. A fervura começa. - Fica dos deuses se colocar toucinho e umas batatas... Minha mãe fazia assim, falou com ares de nostalgia e engoliu saliva. - Que Deus a tenha!
- Busca lá, busca lá, mandaram os frequeses ao dono do boteco.
- Couve cortada bem fininha então...
O dono do estabelecimento, que já ia despejando tudo na panela, leva um empurrão.
- Êpa! Essa receita é minha! Não é assim não. A fervura ainda não deu ponto e a couve é só no final. Deixa tudo aí que eu faço. Você não vai se arrepender.
Foi concluindo o cozimento, mexendo com ares de mago. - Agora, só mais uns minutinhos...
- Quanto tempo? pergunta o dono do boteco.
- Ah, o segredo eu não conto não!
A platéia estava ansiosa e na espera do tal caldinho, nem consumia mais nada pra desespero do proprietário.
O caldinho cheirava que era uma maravilha!
- Pronto! Traz os pratos, ordenou ao dono do boteco. - Tem pra todo mundo e é cortesia deste que vos fala!
Serviu a todos, inclusive a si mesmo, uma dose generosa.
O dono do boteco deitou elogios ao quitute, fazendo coro com a freguesia.
- Precisa me dar a receita direito!
- Vou pensar. Limpa a boca que tá babada!
Repetiram até o caldinho acabar e ficar só a pedra no fundo da panela.
- Bom, minha gente, desculpa qualquer coisa mas vou seguindo meu caminho. Não sou bem-vindo aqui, lembram?
- E a pedra? perguntou o dono do boteco em meio à pilha de louça suja e contando os prejuízos da noite.
- Ah, essa eu levo comigo. É pro caso de eu ter que provar que não sou vagabundo. Só esperto!
E saiu com a pedra no bolso e a barriga cheia.
- Ajudo no que precisar. Sou habilidoso com as mãos.
- Passa daqui vagabundo! Vociferou o dono do boteco que servia PF. - Acha que caio nessa, vagabundo espertinho!
Vagabundo. Não, isso não! Espertinho, bem...
O estômago doía. Concentrou. Pensou e falou bem alto para todo mundo ouvir lá da calçada:
- Não careço do teu prato de comida requentada. Vou preparar um caldinho de pedra que vai roubar tua freguesia.
Começou a procurar pelo chão. Pegou uma pedra, avaliou, jogou de volta. Outra, limpou na blusa. - Essa sim, dá bom caldo!
O dono do boteco e a rala freguesia caem na risada.
- Nunca provaram? Não sabe o que perderam.
- Faz então, ô malandro, gritou um de dentro do boteco. - Quero ver!
- Com prazer. Mas preciso que o "chef" deste distinto estabelecimento me deixe usar o fogão e empreste os utensílios. Milagre não dá!
- É cortesia da casa, disse o proprietário. - Hoje a clientela vai ter show ao vivo! Até vou deixar a porta da cozinha aberta pra todo mundo ver!
Depois de encher uma panela grande com água, colocou a pedra dentro e acendeu o fogo. Mexeu. Aguardou uns instantes. Mexeu novamente comentando com seus botões, mas alto o suficiente para se fazer ouvir:
- Com uns temperinhos antes da fervura fica um primor.
O público, apinhado no balcão do boteco para ver a entrada da cozinha, convence o dono a fornecer os temperos que tiver.
Mais algumas mexidas. A fervura começa. - Fica dos deuses se colocar toucinho e umas batatas... Minha mãe fazia assim, falou com ares de nostalgia e engoliu saliva. - Que Deus a tenha!
- Busca lá, busca lá, mandaram os frequeses ao dono do boteco.
- Couve cortada bem fininha então...
O dono do estabelecimento, que já ia despejando tudo na panela, leva um empurrão.
- Êpa! Essa receita é minha! Não é assim não. A fervura ainda não deu ponto e a couve é só no final. Deixa tudo aí que eu faço. Você não vai se arrepender.
Foi concluindo o cozimento, mexendo com ares de mago. - Agora, só mais uns minutinhos...
- Quanto tempo? pergunta o dono do boteco.
- Ah, o segredo eu não conto não!
A platéia estava ansiosa e na espera do tal caldinho, nem consumia mais nada pra desespero do proprietário.
O caldinho cheirava que era uma maravilha!
- Pronto! Traz os pratos, ordenou ao dono do boteco. - Tem pra todo mundo e é cortesia deste que vos fala!
Serviu a todos, inclusive a si mesmo, uma dose generosa.
O dono do boteco deitou elogios ao quitute, fazendo coro com a freguesia.
- Precisa me dar a receita direito!
- Vou pensar. Limpa a boca que tá babada!
Repetiram até o caldinho acabar e ficar só a pedra no fundo da panela.
- Bom, minha gente, desculpa qualquer coisa mas vou seguindo meu caminho. Não sou bem-vindo aqui, lembram?
- E a pedra? perguntou o dono do boteco em meio à pilha de louça suja e contando os prejuízos da noite.
- Ah, essa eu levo comigo. É pro caso de eu ter que provar que não sou vagabundo. Só esperto!
E saiu com a pedra no bolso e a barriga cheia.
domingo, 4 de maio de 2008
A história da rua
Imaginar o que passou, o que aconteceu, quem estava lá e fazendo o quê.
Uma rua como outra qualquer da cidade? Não! Aquela rua.
Bem frequentada? Valorizada? Arborizada?
Rua próspera? Decadente? De gente triste ou sorridente?
Rua que foi palco de amores, paixões, brigas, desafetos, encontros, reencontros, desencontros?
Rua que fora residencial? Abrigava uma pensão? Quem sabe uma mansão?
Rua de comércio? Secos e molhados, alfaiate, tipografia, armarinho, barbearia?
Passava, vez em quando, o homem do realejo? O carteiro? O pipoqueiro?
O bonde parava mais adiante?
Tinha bar, padaria, restaurante?
Quem sabe? Se pesquisar se descobre! Mas só de imaginar eu sei dizer:
- Antes não tinha viaduto. Não tinha delegacia nem estacionamento. Não tinha semáforo ou pedinte. Que o Metrô passaria perto era palpite.
- Antes não tinha a ESDC. Não tinha o curso de Formação de Escritores. Não havia pioneiros nem aventureiros.
- Então, só agora a história dessa rua vai começar!
Uma rua como outra qualquer da cidade? Não! Aquela rua.
Bem frequentada? Valorizada? Arborizada?
Rua próspera? Decadente? De gente triste ou sorridente?
Rua que foi palco de amores, paixões, brigas, desafetos, encontros, reencontros, desencontros?
Rua que fora residencial? Abrigava uma pensão? Quem sabe uma mansão?
Rua de comércio? Secos e molhados, alfaiate, tipografia, armarinho, barbearia?
Passava, vez em quando, o homem do realejo? O carteiro? O pipoqueiro?
O bonde parava mais adiante?
Tinha bar, padaria, restaurante?
Quem sabe? Se pesquisar se descobre! Mas só de imaginar eu sei dizer:
- Antes não tinha viaduto. Não tinha delegacia nem estacionamento. Não tinha semáforo ou pedinte. Que o Metrô passaria perto era palpite.
- Antes não tinha a ESDC. Não tinha o curso de Formação de Escritores. Não havia pioneiros nem aventureiros.
- Então, só agora a história dessa rua vai começar!
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Maternidades
Voltou a ser criança apesar da sobreposição de décadas.
Cuidado e atenção com as atividades mais corriqueiras.
Voltou a ser criança, com a diferença de que não aprenderá mais nada de novo, não reaprenderá tão pouco. Não retomará as velhas habilidades nem a sabedoria duramente conquistada.
Voltou a ser criança depois que deu rumos a minha vida.
Faço bastar sua presença incerta. Agora tenho apenas a ausência das suas maternidades.
Cuidado e atenção com as atividades mais corriqueiras.
Voltou a ser criança, com a diferença de que não aprenderá mais nada de novo, não reaprenderá tão pouco. Não retomará as velhas habilidades nem a sabedoria duramente conquistada.
Voltou a ser criança depois que deu rumos a minha vida.
Faço bastar sua presença incerta. Agora tenho apenas a ausência das suas maternidades.
Por que escrevo?
E por que não escreveria?
Dizem há tempos que o papel aceita tudo. Então, palavras nele!
Quando não escrevo por encomenda, me agrada caneta macia e papel sem pauta. As palavras fluem...vêm de não sei onde.
E por que não escreveria?
Na verdade não sei. Talvez eu escreva para, quem sabe um dia, descobrir por que escrevo e também por que não escrever não é possível.
Dizem há tempos que o papel aceita tudo. Então, palavras nele!
Quando não escrevo por encomenda, me agrada caneta macia e papel sem pauta. As palavras fluem...vêm de não sei onde.
E por que não escreveria?
Na verdade não sei. Talvez eu escreva para, quem sabe um dia, descobrir por que escrevo e também por que não escrever não é possível.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Oxigênio
O que foi aquilo?! Ela ficou como que anestesiada com o que acabara de ouvir. Aquelas palavras ainda ressoavam e a sensação de ter mais oxigênio disponível na atmosfera daquela sala de aula a levou a lembrar que por pouco não estaria ali. Não fossem as palavras da amiga (novamente as palavras) ela não estaria ali.Desfrutar o privilégio daquela enxurrada de conhecimento, compartilhado de forma espontânea, dinâmica, intensa era algo que ela não esperava para aquela noite. Foi surpresa, da boa, aquela que vale a pena.
Ela foi para casa cansada mas oxigenada por idéias, teorias e palavras (elas de novo). Bem disse o professor à turma: “Vocês não serão mais os mesmos depois deste texto!” Ela não será, com certeza.
Benditas sejam as palavras que fluíram da boca daquele professor e de uma simples cópia xerográfica de um texto, escolhido a dedo e de propósito, para dar uma nova dimensão ao mundo dela.
Inspiração
Aula bônus do curso de Formação de Escritores – “Ler como escritores” com Luiz Roberto Dias de Melo
Texto analisado em aula – O homem da rua, de Mia Couto (in: Contos do nascer da terra)
Assinar:
Postagens (Atom)