Primeiro encontro. Enfim, iria vê-la novamente depois de se conhecerem na festa na casa da vizinha quinze dias atrás.
Parou o fusca creme na frente do edifício onde morava a garota, quase ao mesmo tempo que seu coração. "Lá vem ela! Pensa rápido em algo bonito para dizer." - Ai, que coceira! - Pensou, não falou.
A agonia principiava naquele instante. A sola do pé direito comichava que só ela! - Esquece que passa. Não passou.
__________________________________________________________________
Chegaram ao cinema quase sem falar. "Você quer ver outro filme?" - Não, só quero coçar meu pé! - Pensou, não falou. Como dizer uma coisa dessas no primeiro encontro? 'Dá licença, meu bem, mas vou dar uma coçadinha...'
"Quero ver esse filme sim. Dizem que a história é ótima. Mas antes vou ao toalete, tudo bem?"
"Claro. Na volta você compra pipoca?"
__________________________________________________________________
- Finalmente! No banheiro vou coçar até sangrar! Desgraça de coceira! - Pensou, não falou.
Mal entrou no banheiro masculino, escutou: "E aí? Como vai? Nos vimos na festa da sua vizinha, lembra? Você estava se entendendo com uma colega minha da faculdade."
- Ai, meu Deus! E eu querendo coçar meu pé. Disfarça, faz xixi logo e sai. Imagina se na segunda-feira, no meio da aula, o cara contra pra ela que eu tirei o sapato, a meia e comecei a coçar o pé!
___________________________________________________________________
"Demorou!"
"É que eu encontrei aquele seu colega de faculdade que estava na festa. Quer pipoca e refri?"
- Vou ter que dar um jeito nisso durante o filme. Maldita coceira que não passa. Não é possível! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
- Ai, como é bom! Toma coceira maldita! - Raspando o pé calçado na sola do outro apenas com a meia, finalmente conseguiu botar fim na agonia e prestar alguma atenção na história que fazia a garota chorar. - Ela nem percebeu! - Pensou, não falou.
__________________________________________________________________
Hoje, quase vinte anos depois, ela às vezes olha o marido e pensa, não fala - Naquele dia você estava tão bonitinho disfarçando pra coçar o pé...
domingo, 15 de junho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
3 comentários:
Arta cocêra mardita!!!
Que grande dilema: coçar ou não coçar? eis a questão
Quantas vezes a falta de transprência, vergonha e a timidez
impedem nosso crescimento.
Que ótimo Patrícia !! Genial !
Perfeito o trocadilho do pensar e falar, ou, não pensar e não falar...eehehehehe
Abraços
Sady
Muito legal sua abordagem da questão do pensar e não dizer.
Adorei a historinha, muito meiga. E, confesso, até me deu uma coceirinha no pé..rs
Postar um comentário