domingo, 1 de junho de 2008

Foi mais ou menos assim que me contaram...

Ele estava disposto a pagar com trabalho pelo prato de comida. Não tinha orgulho. Tinha fome. Não queria pedir. Queria trocar.
- Ajudo no que precisar. Sou habilidoso com as mãos.
- Passa daqui vagabundo! Vociferou o dono do boteco que servia PF. - Acha que caio nessa, vagabundo espertinho!
Vagabundo. Não, isso não! Espertinho, bem...
O estômago doía. Concentrou. Pensou e falou bem alto para todo mundo ouvir lá da calçada:
- Não careço do teu prato de comida requentada. Vou preparar um caldinho de pedra que vai roubar tua freguesia.
Começou a procurar pelo chão. Pegou uma pedra, avaliou, jogou de volta. Outra, limpou na blusa. - Essa sim, dá bom caldo!
O dono do boteco e a rala freguesia caem na risada.
- Nunca provaram? Não sabe o que perderam.
- Faz então, ô malandro, gritou um de dentro do boteco. - Quero ver!
- Com prazer. Mas preciso que o "chef" deste distinto estabelecimento me deixe usar o fogão e empreste os utensílios. Milagre não dá!
- É cortesia da casa, disse o proprietário. - Hoje a clientela vai ter show ao vivo! Até vou deixar a porta da cozinha aberta pra todo mundo ver!

Depois de encher uma panela grande com água, colocou a pedra dentro e acendeu o fogo. Mexeu. Aguardou uns instantes. Mexeu novamente comentando com seus botões, mas alto o suficiente para se fazer ouvir:
- Com uns temperinhos antes da fervura fica um primor.
O público, apinhado no balcão do boteco para ver a entrada da cozinha, convence o dono a fornecer os temperos que tiver.
Mais algumas mexidas. A fervura começa. - Fica dos deuses se colocar toucinho e umas batatas... Minha mãe fazia assim, falou com ares de nostalgia e engoliu saliva. - Que Deus a tenha!
- Busca lá, busca lá, mandaram os frequeses ao dono do boteco.
- Couve cortada bem fininha então...
O dono do estabelecimento, que já ia despejando tudo na panela, leva um empurrão.
- Êpa! Essa receita é minha! Não é assim não. A fervura ainda não deu ponto e a couve é só no final. Deixa tudo aí que eu faço. Você não vai se arrepender.
Foi concluindo o cozimento, mexendo com ares de mago. - Agora, só mais uns minutinhos...
- Quanto tempo? pergunta o dono do boteco.
- Ah, o segredo eu não conto não!

A platéia estava ansiosa e na espera do tal caldinho, nem consumia mais nada pra desespero do proprietário.
O caldinho cheirava que era uma maravilha!
- Pronto! Traz os pratos, ordenou ao dono do boteco. - Tem pra todo mundo e é cortesia deste que vos fala!
Serviu a todos, inclusive a si mesmo, uma dose generosa.
O dono do boteco deitou elogios ao quitute, fazendo coro com a freguesia.
- Precisa me dar a receita direito!
- Vou pensar. Limpa a boca que tá babada!
Repetiram até o caldinho acabar e ficar só a pedra no fundo da panela.
- Bom, minha gente, desculpa qualquer coisa mas vou seguindo meu caminho. Não sou bem-vindo aqui, lembram?
- E a pedra? perguntou o dono do boteco em meio à pilha de louça suja e contando os prejuízos da noite.
- Ah, essa eu levo comigo. É pro caso de eu ter que provar que não sou vagabundo. Só esperto!
E saiu com a pedra no bolso e a barriga cheia.

6 comentários:

Sady Folch disse...

Patrícia, Patrícia...e você nos escondendo essas pérolas !!!
Isso não se faz.
Muito boa a história.
Abraços.
Sady

Eduardo disse...

FAZER UMA SOPA DESSAS ATÉ EU SU CHEF.

Lu Faria dos Anjos disse...

Olá Patrícia,

Fiquei encantada com a forma que você transcreveu esta estória da sopa de pedras.Tive um professor que escreveu 3 livros, todos nessa linha de "contação de estórias e anedotas de Pedro Malazartes".É muito difícil conseguir traduzir para a escrita uma modalidade consagrada na oralidade.Na maioria das vezes perde-se muito da originalidade, mas você conseguiu manter todas as características originais da fala. Parabéns! Continue contado estórias e anedotas, será um sucesso!
Bjs.

Ursulla Mackenzie disse...

Oi Patrícia! Gostei muito do texto!!!Bem estruturado, bem contado!!!E dizendo que não tinha escrito nada, hem!!!rs!!!

Olga disse...

Que personagem delicioso esse que você inventou! Imaginei a cena em preto-e-branco com o Charlie Chaplin e seu eterno vagabundo protagonizando o espetáculo da sopa! A sopa, seu tema; um banquete, sua história! Parabéns, Patrícia!

Claudia disse...

Patrícia, que graça de história. Adorei o jeito de contá-la.
Um beijo, Clau*