Ele estava disposto a pagar com trabalho pelo prato de comida. Não tinha orgulho. Tinha fome. Não queria pedir. Queria trocar.
- Ajudo no que precisar. Sou habilidoso com as mãos.
- Passa daqui vagabundo! Vociferou o dono do boteco que servia PF. - Acha que caio nessa, vagabundo espertinho!
Vagabundo. Não, isso não! Espertinho, bem...
O estômago doía. Concentrou. Pensou e falou bem alto para todo mundo ouvir lá da calçada:
- Não careço do teu prato de comida requentada. Vou preparar um caldinho de pedra que vai roubar tua freguesia.
Começou a procurar pelo chão. Pegou uma pedra, avaliou, jogou de volta. Outra, limpou na blusa. - Essa sim, dá bom caldo!
O dono do boteco e a rala freguesia caem na risada.
- Nunca provaram? Não sabe o que perderam.
- Faz então, ô malandro, gritou um de dentro do boteco. - Quero ver!
- Com prazer. Mas preciso que o "chef" deste distinto estabelecimento me deixe usar o fogão e empreste os utensílios. Milagre não dá!
- É cortesia da casa, disse o proprietário. - Hoje a clientela vai ter show ao vivo! Até vou deixar a porta da cozinha aberta pra todo mundo ver!
Depois de encher uma panela grande com água, colocou a pedra dentro e acendeu o fogo. Mexeu. Aguardou uns instantes. Mexeu novamente comentando com seus botões, mas alto o suficiente para se fazer ouvir:
- Com uns temperinhos antes da fervura fica um primor.
O público, apinhado no balcão do boteco para ver a entrada da cozinha, convence o dono a fornecer os temperos que tiver.
Mais algumas mexidas. A fervura começa. - Fica dos deuses se colocar toucinho e umas batatas... Minha mãe fazia assim, falou com ares de nostalgia e engoliu saliva. - Que Deus a tenha!
- Busca lá, busca lá, mandaram os frequeses ao dono do boteco.
- Couve cortada bem fininha então...
O dono do estabelecimento, que já ia despejando tudo na panela, leva um empurrão.
- Êpa! Essa receita é minha! Não é assim não. A fervura ainda não deu ponto e a couve é só no final. Deixa tudo aí que eu faço. Você não vai se arrepender.
Foi concluindo o cozimento, mexendo com ares de mago. - Agora, só mais uns minutinhos...
- Quanto tempo? pergunta o dono do boteco.
- Ah, o segredo eu não conto não!
A platéia estava ansiosa e na espera do tal caldinho, nem consumia mais nada pra desespero do proprietário.
O caldinho cheirava que era uma maravilha!
- Pronto! Traz os pratos, ordenou ao dono do boteco. - Tem pra todo mundo e é cortesia deste que vos fala!
Serviu a todos, inclusive a si mesmo, uma dose generosa.
O dono do boteco deitou elogios ao quitute, fazendo coro com a freguesia.
- Precisa me dar a receita direito!
- Vou pensar. Limpa a boca que tá babada!
Repetiram até o caldinho acabar e ficar só a pedra no fundo da panela.
- Bom, minha gente, desculpa qualquer coisa mas vou seguindo meu caminho. Não sou bem-vindo aqui, lembram?
- E a pedra? perguntou o dono do boteco em meio à pilha de louça suja e contando os prejuízos da noite.
- Ah, essa eu levo comigo. É pro caso de eu ter que provar que não sou vagabundo. Só esperto!
E saiu com a pedra no bolso e a barriga cheia.
domingo, 1 de junho de 2008
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6 comentários:
Patrícia, Patrícia...e você nos escondendo essas pérolas !!!
Isso não se faz.
Muito boa a história.
Abraços.
Sady
FAZER UMA SOPA DESSAS ATÉ EU SU CHEF.
Olá Patrícia,
Fiquei encantada com a forma que você transcreveu esta estória da sopa de pedras.Tive um professor que escreveu 3 livros, todos nessa linha de "contação de estórias e anedotas de Pedro Malazartes".É muito difícil conseguir traduzir para a escrita uma modalidade consagrada na oralidade.Na maioria das vezes perde-se muito da originalidade, mas você conseguiu manter todas as características originais da fala. Parabéns! Continue contado estórias e anedotas, será um sucesso!
Bjs.
Oi Patrícia! Gostei muito do texto!!!Bem estruturado, bem contado!!!E dizendo que não tinha escrito nada, hem!!!rs!!!
Que personagem delicioso esse que você inventou! Imaginei a cena em preto-e-branco com o Charlie Chaplin e seu eterno vagabundo protagonizando o espetáculo da sopa! A sopa, seu tema; um banquete, sua história! Parabéns, Patrícia!
Patrícia, que graça de história. Adorei o jeito de contá-la.
Um beijo, Clau*
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