Finalmente o nevoeiro começa a dissipar. Alguns raios de sol anunciam a manhã e revelam a paisagem tão familiar aos meus olhos.
Há quantos anos venho a este lugar? Muitos mesmo. Desde o final de minha adolescência e mesmo assim não consigo me cansar. Gosto do cheiro de maresia. Me deixo levar pelo som das ondas que quebram na praia. Parece que conheço cada grão de areia!
Todas as pessoas me chamam pelo nome, reconhecem meus pertences ao lado do guada-sol e respeitam minhas leituras solitárias.
Todas as pessoas. Hoje não vejo ninguém. É cedo ainda? Estou com frio mas em breve o calorzinho matinal me dará algum conforto. As pessoas devem começar a chegar. Passarão fragmentos de conversas alheias que despertarão minha imaginação novamente.
Mas sinto que o frio começa a doer no ossos. O sol já deveria me aquecer. Talvez a noite tenha sido gelada e levará mais algum tempo para o calor trazer bem estar e também as pessoas.
Pessoas. Por que não chegam? Onde estarão? Talvez, como meu companheiro, devam estar de preguiça ou tomando uma segunda xícara de café.
Meu companheiro. A estas horas já costuma estar no mar a brincar de domar as ondas. Não o vejo. Terá escolhido outra distração? Me avisaria!
Me avisaria também que ainda faz frio apesar do sol. Vejo seu brilho mas não sinto seu poder. Estremeço e me encolho cada vez mais. Nesse gesto não me percebo. É como se não estivesse ali. O frio, ainda mais intenso, acaba por fim me trazendo uma certeza: sou só lembranças. Parti!
Parti sem aviso, não me dei conta e continuei como se ainda fizesse parte do cenário que tanto apreciei esses anos todos.
Desespero. Reflito e decido: aguardar o entardecer e nas sombras procurar abrigo até que o próximo nevoeiro me envolva novamente. Desta vez, para sempre!
domingo, 8 de junho de 2008
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4 comentários:
Oi, Patrícia. Gostei da evolução do texto. Começa leve e vai tornando-se denso. Parece algo cotidiano e torna-se uma questão primordial. Muito bom.
Um beijão, Clau*
Patrícia,
A "morte" que você viveu em seu sonho, na minha interpretação, nada mais é do que a morte de uma parte sua, justamente a parte que "não consegue escrever"... porque esta parte está, sim, morrendo, e outra está nascendo, a parte da escritora em você. E essas transformações dão medo, sinalizam grandes desafios, é a tal da "caverna oculta", não é?? Mas tenha a certeza que no final dela está seu elixir, que fará todos os medos valerem a pena!
Parabéns pelo texto lindo e sensível! Dulce
Patrícia, esse texto está ótimo. Fiz um poema que publiquei no blog que diz..."No dia em que eu for embora"...Contudo, este aqui é surpreendente. É forte e tem uma imagem ótima dos sentimentos vividos...
vividos ? Não sei. Mas comc erteza sentidos.
Abraços
Sady
Patrícia,
ainda que os olhos digam muito, o nevoeiro nem sempre nos deixa perceber a profundidade das águas, do mar azul que povoa seu rosto!
E haja profundidade...
As imagens desse texto são belíssimas, o frio vai tomando o leitor e o nevoeiro nos cerca, fazendo a praia sumir (e eu que passo frio aqui en Sampa, sonhando com meus dias de surfista em Santos, me identifiquei demais).
Mas no desfecho destaco a frase:
"Parti sem aviso, não me dei conta e continuei como se ainda fizesse parte do cenário que tanto apreciei esses anos todos."
Simplesmente lindo!
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